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sábado, 29 de novembro de 2014

Barulho Engraçado


Uma música de jazz tocava ao longe, cortando o silêncio afável das madrugadas. Ela, sentada sobre sua King Box, que tinha um edredom laranja embolado perto da cabeceira, apoiava o cotovelo em uma das pernas (causando uma dor, a qual não a incomodava) e levava à boca sua unha esmaltada de vermelho. Pela garganta passava espremido, no nó que criara, o gosto ruim do esmalte que desfizera entre seus dentes. Mas, também, não a incomodava. Ela estava engolindo coisa pior. Engolia a vontade de dizer tudo o que sentia, suas papilas gustativas sentiam o amargo de calar.  
ELE não entendia nada que ELA vivia, ele mal sabia da vida dela. Ele não sabia, mas por trás daquele sorriso emoldurado pelo batom framboesa aconteciam catástrofes estrombóticas, explosões como um Big Bang! Ele nem imaginava, mas enquanto ele discursava sobre um filme ruim, que viu na noite passada, e citava coisas da sua vida como exemplo, ela sorria! Mas, por trás do sorriso encantado, sua língua dobrava como um nó, no intuito de abafar os gritos na mente. Porque ela engolia tudo que queria falar, ela engolia palavras não-faladas, palavras não-escritas, engolia pontos, sinais gráficos e uma entonação sincera. Tudo isso era engolido e passava pelo natural processo de digestão, iria virar uma merda! E o que sobrava na sua boca era um oco, que se ela batesse contra, usando uma das as mãos, faria um barulho engraçado. 
Na boca de batom já enfraquecido, repousava a unha do dedão com esmalte pela metade, enquanto se lembrava do quanto era engraçada, enxergava, que engolir o calar deixava marcas. Assim, refletiu sobre a origem da palavra calar. Calar causa calos por dentro. E mais uma vez, num calo, bateu na boca como índio, queria ouvir o barulho engraçado do oco que sobrara.

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