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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Armani, agora, é o novo preto

Cap. 08: Obrigado pela insistência.

Tenho a teoria que nossa vida acontece enquanto a gente come biscoito de água e sal, bebendo um café ralo e melado, ou seja, quando não estamos percebendo, ou tateando, as coisas. A exemplo: Quando estou vivendo a vida do meu alterego, a Lady Lovet, sempre encontro pessoas na rua, recebo ligações inesperadas com boas notícias. E, inclusive, quando sou eu mesmo, também, sinto as coisas acontecerem sem eu perceber. Afinal, passei por um corredor-polonês de Armanis, exceto o Armani-Nerd, os demais - até a chegada do Armani-Tatuado – me destruíram, levaram com eles um pouco do meu idealismo. E quando eu estava mais desmontado, assistindo as séries e promovendo eventos VIPs, em que eu era a única pessoa convidada, foi que numa tarde qualquer fui surpreendido pelo Armani-Tatuado. E fui surpreendido por ele quando me buscou pra jantar em meio a noite. Fui surpreendido por uma conversa agradável, por um olhar sombrio, mas confortável. Naquele dia, no Olho de vidro do Ciclope eu sabia que era o cara certo, só não sabia se daria certo.
Armani-Tatuado prosseguiu me encontrando. Em resumo:
1 -Nos encontramos, no Olho de vidro do Ciclope, no dia da herpes. Nos beijamos!
2- Nos encontramos, no dia seguinte, no café perto de onde trabalho. Ao fim da noite nos beijamos.
3- Nos encontramos, dois dias depois, na porta do cinema. Nos beijamos.
4- Nos encontramos, no dia seguinte, num jantar na casa dele. Quase transamos.
5- Nos encontramos, outra vez, no Olho de vidro do Ciclope. Ele me pediu em namoro.
Isso mesmo, sociedade! Ele me pediu em namoro no quinto encontro, cerca de uma semana saindo juntos. Apavorado eu tentei dizer algo, meus lábios se tremeram todO, fiquei um tanto quanto assustado, buscando um garçom para que eu pudesse colocar o pé pra ele cair e tirar a atenção de mim. Depois pensei em ter uma conversa séria a respeito do que ele estava me dizendo. Em seguida, pensei que minha testa estava suando e que isso poderia deixá-lo nervoso. Então, pensei nos blocos de anotações da minha mesa, eu não havia comprado os blocos azuis, sendo que, geralmente, só uso os blocos azuis, logo, com novos blocos, na cor amarela, eu poderia confundir anotações importantes. Ao fim desse fluxo de pensamento ele me cutucou no braço e eu disse:
- Desculpa se me desliguei por cinco minutos...
- Não, você não se desligou. Só te cutuquei, porque assim que falei você perdeu o olhar por um segundo – Disse ele com um tom de gargalhada charmoso enfeitando a fala.
- Desculpa! O que você disse mesmo. - Fiz a dissimulada!
- Você me ouviu bem, por favor. - Odeio homens firmes, me constrangem.
- Ah sim, pensa bem no que você está me falando, eu tenho uma pinta peluda nas costas que não alcanço pra depilar. - MEU DEUS!!! Eu disso isso.
- Eu depilo pra você – Respondeu Armani-Tatuado rindo. Que tipo de resposta é essa, gente?!
- Armani, me desculpa! Eu preciso entender o que está acontecendo. Se importa se eu for ao banheiro?
No reflexo do espelho, eu me deparei comigo mesmo. Depois de tantas porradas da vida, surgia entre a poeira alguém que poderia me fazer o bem, mesmo assim, algo me apavorava. Me lembrei de um micro-conto que escrevi há alguns anos num blog que tive. Ele dizia, mais ou menos, assim:
A garota alucinanda.
A garota alucinada se prendia em sua mente. A mente era onde ela devia buscar sua liberdade. Mas a garota alucinada acreditava, piamente, que tudo que ela sonhava um dia se concretizaria.
Certa vez, a garota alucinada sonhou com uma saia rodada de bolinhas. No dia seguinte, ganhou da mãe uma saia rodada de círculos pequenininhos. Não ficou satisfeita, eram círculos pequenininhos, não eram bolinhas como havia sonhado. Disse à mãe que não queria, enquanto ansiava pela realização do que sonhara.”

- Eu não tô preparado, agora, Armani.

O rosto um pouco frustrado, os ombros um pouco caídos e no olhar um brilho se apagava (queria usar a palavra ruborizar pra ser mais romântico nesse meu relato, mas ela não coube aqui. Então fica registrado: Ruborizar.)
Na minha mente, enquanto jogava num Nintendo velho no breu do apartamento, passava a pergunta como um letreiro luminoso: “O que é estar preparado?” - Armani-Tatuado tem bom papo, é atraente, sabe se comportar, tem caráter e é um homem bom, afinal, me ajudou na boate sem nem me conhecer. Estar preparado talvez transcenda a isso tudo. Acho que consigo enxergar, nessa posição que estou, que não existe estar preparado ou não. Não existe cara certo na hora errada. Quando a gente quer, a gente vai e faz. Quando a gente sente. A gente vai e fica. O celular vibrou sobre a mesa de centro:
Armani-Tatuado: Eu queria pedir desculpas. Entenda que não há nada de errado em estar na sua posição. Beijos!
O tempo passou bem lentamente. Não havia Armani na minha vida, exceto o Armani-nerd, esse acho que, talvez, seja, de fato, o Armani do Tarot, afinal, já nutro por ele um amor enorme que explode no peito. A relevância dele na minha vida é grande, é com ele que consigo me distrair, me divertir... não fosse ser só amizade, seria o homem da minha vida. Não lembro da marcação do tempo, mas depois que Armani-Tatuado mandou aquela mensagem ficamos algumas semanas sem nos vermos. Embora, eu tivesse o visto num café com um outro rapaz, também tatuado. Não sei exatamente o que senti, mas me abaixei e sai de fininho do café. Em seguida, o meu celular vibrou e lá estava:
Armani-Tatuado: HAHAHAHAHAHA Que cena ridícula, acabei de te ver saindo abaixado. Não nos quero constrangidos. Tenho saudades. Entendo seu lado, mas queria um café contigo, como amigos... beijos!
Não tente entender o porquê, pois nem eu entendo. Mas, digitei um texto assustadoramente enorme e apaguei. Pra mim, não fazia sentido tê-lo por perto, naquele momento eu estava certo que não queria contato. Cheguei em casa, liguei a TV, na mesa dois bilhetes:
1 - “Peguei licença e vou ficar três dias com a minha mãe. Bjs! Felipa.”
2 - “Ricardo me convidou pra casa de veraneio, a gente só tá ficando, mas curti a ideia. Não sei quando volto. Armani-(Nerd)”
Me joguei no sofá, olhei meu celular e não tinha nenhuma mensagem. A sensação que tenho é que fiquei naquela mesma posição por três dias, quando Felipa me acordou pela manhã perguntando se eu estava bem. Assustado, acordei pensando em Armani-Tatuado, olhei para Felipa e tomei café da manhã com ela. Conversamos sobre a viagem. Durante o papo meu coração parecia dar um nó, quando ela saiu da cozinha e foi para o quarto se organizar enviei uma mensagem ao Armani-Tatuado:

Aquele café ainda está de pé?”

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