Atenção

Os conteúdos textuais desse blog são protegidos pela lei Nº9610, de 19 de Fevereiro de 1998.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Armani, agora, é o novo preto

Capítulos Anteriores
Cap. 10: Obrigado por tudo


Sabe quando as coisas estão divididas demais? Tipo, a região pélvica quando está muito bem marcada por calças apertadas, e, assim, divide o sexo ao meio. Ou quando a novela das oito está tão boa quanto o programa de venda Polishop. Sabe quando o professor é lindo, mas dá aula de história paleolítica? Ou quando você está sozinho há meses e não se apaixona por ninguém? Enfim, essas sensações de dualidade conseguem figurar bem.
Acontece que o 'oi' do Armani-Tatuado já faz um ano, desde aquele 'oi' nos vimos praticamente todos os dias. Um namoro feliz, saudável e sexualmente satisfatório. Mas, algo ruim aconteceu.
Armani-Nerd estava com os olhos inchados, como se alguém tivesse ejaculado em seus globos oculares. O nariz escorria meleca sem parar. Um grito doentio saia de sua boca e ele repetia sem parar: Fael morreu! - Entenderam o motivo do sentimento conflitante. Eu estava, extremamente, feliz com meu namoro duradouro com Armani-Tatuado, mas um dos meus melhores amigos havia preparado uma surpresa de aniversário pro seu boy – que era sair de dentro de um bolo na festa de aniversário – porém, ele ficou sufocado dentro do bolo confeccionado por ele mesmo, e que não tinha saída de ar. Fael morreu!

No caixão estava o corpo de Fael. Nenhum de nós tínhamos perdido alguém tão próximo. Não dava pra entender bem o que estava acontecendo. Era o cara que saia pra beber conosco, ele morou comigo e Felipa por anos, era com ele que eu brigava por não tirar o pentelho do sabonete. Mas era ele que nas noites de quinta-feira assava biscoitos de manteiga, e sentava na janela pra gente falar sobre nossas constantes desilusões amorosas. E agora, ele estava deitado, ali, com flores claustrofóbicas cobrindo maior parte de seu corpo, e usando um terno ridículo que nem combinava com o seu cabelo descolorido. Estava, ali, agora, só um corpo gelado, um corpo sem expressão... E todos nós impotentes, na esperança que ele se levantasse, e disse que era só uma etapa da surpresa que preparara pro seu boy.

Felipa pegou um café no buffet, seus óculos escuros escondiam um pouco da sua tristeza, mas a forma com que ela caminhava demonstrava, claramente, o quanto estava destruída. Com o café prosseguiu em direção a uma estrada arborizada que tinha naquele cemitério. Sumiu entre a vegetação. Ostentando seu vestido preto. Se isolou completamente...

O boy de Fael não saia do lado do caixão, onde estava a mãe do falecido, também. Eu estava na porta da capela com Armani-Tatuado, que me abraça e cumpria seu papel de apoiador. Quando percebi que todos deixaram o caixão sozinho por um tempo, entrei e fui bem perto do corpo. O corpo, apenas um corpo. Era um corpo, um corpo que hospedou uma alma que muito me fez viver. Um corpo que me divertiu e me amparou. Era só um corpo! Só um corpo, agora. Mas fora um pedaço de tudo que sou. Era só um corpo, mas fora um elo entre mim e Armani-Nerd. Fora uma liga em mim e Felipa. Fora abraço, fora conforto, fora diversão, mas, agora, era só um corpo. E quando olhei, bem profundamente, para seu rosto me lembrei dele dizendo que quando morresse queria que a morte fosse num momento em que ele estivesse se divertindo. Assim, automaticamente, quando me debrucei em seu corpo para beijar a face morta, me lembrei que ele havia morrido dentro de um bolo. Assim, comecei a rir. Aproveitei que eu estava debruçado e deixei confundirem minha gargalhada abafada com soluços de um choro sofrido. Mas, comecei a pensar no que ele comentaria a respeito disso. Aí, me lembrei de como essa gay era extravagante e em como sua gargalhada era hilária. Então, os soluços já não pareciam de choro, pois a gargalhada começou a ser solta e frouxa. Então, inclinei para trás e comecei a gargalhar desesperadamente e dando gritos agudos ao fim de cada gargalhar. Em seguida, coloquei a mão no rosto e fazia sons esquisitos de quem estava sentindo dores de barriga de tanto rir. Meus olhos agora se inundaram de um choro divertido. Foi quando senti a mãe de Fael me segurar pelos ombros e a realidade me bateu. Assim, a gargalhada foi caindo e se tornando um choro escandaloso, eu me tremia inteiro. Algo doía, mas não era como uma dor física. Comecei a ameaçar cair, então fui levado para uma sala ao lado da capela. Onde estava Armani-Nerd, sofrendo desesperadamente pelo primo falecido.

Fecharam a porta e só ficamos eu e Armani-Nerd na saleta. Nos abraçamos e choramos sem parar. Em seguida, segurei a cabeça de Armani-Nerd e colei a minha testa na sua. Limpei seus olhos lacrimejados. Ele me olhou com sensibilidade. E sua reação involuntária foi me dar um beijo francês. Confuso eu cedi ao momento e nos beijamos efusivamente, até que ouvimos a porta se abrir e olhamos juntos naquela direção...

Eu gritei: - Armani! - Era Armani-Tautado. Agora, ele carregava em seus olhos o mesmo tom que tinha nos olhos de Fael. Um tom que revelava a falta de vida e ânimo. Eu jurava que ele era o Armani do tarot...

CONTINUA...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Oi, Perdido no Espaço!
Sua opinião é sempre importante. Aguardo!